Não há dúvidas quanto à existência de uma profunda crise nas relações humanas e sociais. Neste caso, como em outros, o todo é o reflexo das partes e vice-versa. O casamento passa por uma intensa reestruturação quanto à sua forma tradicional, baseada na supremacia do homem, visto e tido como provedor, e da mulher, procriadora e mantenedora da vida no lar.
As coisas há muito já não andam bem assim, pois desde o
início da Revolução Industrial - há mais de duzentos anos, também a mulher passou a
trabalhar fora de casa, para auxiliar o marido no sustento da família. Com isso, toda a
instituição familiar passou a sofrer mudanças profundas, com reflexos diretos no papel
de cada membro que a constitui: marido, mulher, filhos e a parentela.
Esse longo processo de renovação das idéias, da forma de se
entender e constituir o núcleo social - a família - ainda não terminou. Talvez
estejamos vivendo o seu momento crucial, com novas relações surgindo e se firmando na
relação familiar. É aquele momento de crise, de ruptura com o antigo para a
construção do novo. Os casamentos duram pouco; pais e filhos não se entendem.
- Os filhos na visão dos pais
A geração do pós-guerra ainda carrega consigo muitas tradições, preceitos e preconceitos relacionados com a autoridade e com a hierarquia doméstica. Uma coisa complicada numa época em que todos buscam algum tipo, não muito claro, de liberdade sem limites, sem peias e amarras, numa sociedade que vive uma espécie de anarco-democracia.
Nossos avós não compreenderam os anseios dos anos 60 do
século XX, e mais confusos e perplexos ainda ficaram nossos pais, com a expansão
tecnológica na era da comunicação e da informática. Perderam o poder porque perderam
um conhecimento que os fazia respeitados - às vezes temidos - e ainda viram esse
conhecimento perder seu sentido e valor diante dos novos e rápidos avanços da ciência e
da técnica.
Essa geração vive a insegurança, a incerteza e a ausência de valores morais e sociais estáveis. Sem referenciais razoáveis perde-se num empirismo perigoso que, não raras vezes, termina na terceirização da instrução e da formação moral dos filhos.
A escola, a tv, a secretária, os computadores e os videogames assumem friamente o papel de orientadores para uma vida pessoal, familiar, social e profissional cada vez mais complexa. A ausência do afeto, do amor, nas relações interpessoais aumentou mais ainda e o individualismo cresceu; a hipertrofia do ego predomina em quase todos os ambientes.
A humildade converteu-se em sinônimo de fraqueza, e esperteza
significa inteligência e progresso. É a inversão e subversão dos valores. Por esse
ângulo os pais são, de certo modo, vítimas das circunstâncias, em parte são omissos
diante de situações novas que não compreendem nem procuram compreender. Os filhos caem
na delinqüência e os laços familiares se desfazem, refletindo na sociedade.
Sentindo-se sem condições de competir com o fascínio dos
computadores - totens modernos - e com a linguagem da tv, que faz uma espécie de lavagem
cerebral nas mentes da atual juventude, os pais entregam-se às circunstâncias e entregam
os filhos para o mundo, sem mapa e sem bússola.
- Os pais na visão dos filhos
Para a atual geração, o mundo é um lugar de prazeres
imediatos, apesar dos perigos. Ressalvadas as exceções, a maior parte dos nossos jovens
não tem preocupações reais quanto ao futuro. Irresponsabilidade e descompromisso total.
Falta autoadministração. Se lhes perguntam porque não estudam "para serem alguém
na vida", já têm a resposta na ponta da língua: - estudar para quê? para ser um
ilustre desempregado?
Na perspectiva dos filhos, os pais já não são os
"caretas" e "quadrados" de outros tempos, são apenas analfabetos
tecnológicos, deslocados no tempo e no espaço, incapazes de entender os efeitos
especiais do último filme premiado, nem o "balanço" da banda 'x'. Basta ter
paciência com eles e fingir que concordam e obedecem.
- Que fazer?
Sem orientação segura e princípios adequados para
situarem-se na vida, nossos jovens são presas fáceis dos momentos difíceis: a doença,
a perda de entes queridos, a falência moral ou material, os tropeços e
dificuldades naturais na vida profissional etc.
Não possuem filtros mentais para selecionar os filmes que
assistem, os livros que eventualmente lêem, as músicas que ouvem, os esportes que
praticam, ou um mínimo de senso crítico para defenderem-se dos apelos mercantilistas ou
da propaganda subliminar que lhes é passada pelos muitos filmes que divulgam a cultura da
violência e do hedonismo. Numa situação dessas fica realmente difícil permanecer
sentado diante da tv, tendo o pai ou a mãe como companhia.
É preciso entender que vivemos um momento de transição
cultural que afeta diretamente a estrutura familiar e, conseqüentemente, a social. A
saída para essa situação dramática ainda é o diálogo e o respeito. A criação e
manutenção de pontes de comunicação entre os membros da família. Pontes que uns e
outros possam atravessar quando quiserem para solucionar razoavelmente seus conflitos,
diferenças e divergências.
A criação dessas pontes só pode ser feita onde exista um
mínimo de afeto, de tolerância e respeito perante situações novas que surgem a cada
dia, atingindo marido e mulher, pais e filhos. A manutenção dessas pontes só é
possível a quem sabe dar o primeiro passo para atravessá-las, em busca do outro para o
entendimento. Uma coisa certamente difícil na maioria dos casos, mas indispensável. No
mínimo, é preciso disposição para encontrarem-se no meio de uma ponte, mas alguém
precisa sinalizar.
Pode ser que tudo isso demore a retomar uma relativa
normalidade e estabilidade, mas o tempo não espera e todos temos que seguir viagem.
Apesar das dificuldades, o diálogo é o melhor recurso, e a boa convivência entre pais e
filhos certamente ainda é possível.
- Paulo R. Santos (MG)
E-mail: prds.k@ig.com.br
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